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Postado em: 27/08/2015 - 11h55 | CUT-SP

Indústria paulista está em crise por descaso do governo de São Paulo

São Paulo deixou de ser a locomotiva do Brasil há muito tempo e, segundo avaliação de especialistas que participaram nesta quarta-feira (26) de oficina durante o 14º Congresso Estadual da CUT São Paulo (CECUT), engatou a marcha ré em relação ao país.

Técnico de planejamento e pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Miguel Matteo, foi enfático ao lembrar que até os anos de 1980, São Paulo tinha uma taxa média de crescimento parecida com a do Brasil e que agora o cenário inverteu. “Em períodos prósperos, ela chegava a crescer mais. Em períodos de crise, São Paulo igualmente caía, com o Brasil a reboque. Este cenário mudou porque agora é o Brasil quem puxa São Paulo”, disse.

Assessor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Fausto Augusto Júnior apontou o tamanho do prejuízo que esse cenário provoca para toda a economia do país.

Conforme destacou, apesar de a indústria significar somente 13% do PIB, ela é responsável por 17,5% dos empregos formais e 17,3% da massa salarial. E ainda incide sobre outros setores. “A indústria agrega boa parte do emprego formal, que é a base de consumo e de crédito no país. Boa parte do crédito para pessoa física passa pela garantia do emprego formal e do salário, portanto, quando a indústria cresce, ela puxa o investimento junto”, ressaltou.

Culpa de quem?

Fausto atentou para o fato de que a participação da indústria paulista no emprego industrial nacional caiu 2,7 pontos percentuais entre 2003 e 2013. Dados oficiais também mostram que no acumulado de 2015, a indústria de transformação já perdeu cerca de 77 mil postos de trabalho.

Uma das causas desse cenário, avalia o técnico do Ipea, é que a gestão tucana nos últimos 20 anos abriu mão de apresentar propostas que mantivessem São Paulo à frente da política industrial e foi omisso. “O governo de São Paulo poderia fazer muito mais, ter por exemplo uma política tributária mais ativa para diminuir a contribuição de ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços] de algumas empresas que tivessem dificuldade. Isso para manter essas empresas em São Paulo”, avalia.

Fausto concorda com a falta de uma política tributária que fortaleça a indústria no estado. “Por exemplo, no custo final da tarifa de energia elétrica do estado, 22% são de ICMS”.

Para o economista do Dieese, a irresponsabilidade do governo remonta a casos como o da privatização do Banco do Estado de São Paulo, o Banespa, no ano de 2000, que atingiu 578 agências, 22 mil funcionários e 3,1 milhões de clientes. E afetou a política de crédito para a produção. “Ele era responsável por parte significativa da concessão de crédito às indústrias paulistas. No período, o Banespa tinha incorporado o Banco de Desenvolvimento do Estado de São Paulo.”

Matteo defende também que os governos em todos os níveis têm responsabilidade sobre o processo de desindustrialização, mas que, comparado ao federal, o governo paulista sequer adotou medidas para frear esse processo. “No caso do governo federal, a gente tem taxas de juros muito altas e o dólar valendo muito pouco por muito tempo, prejudica a produção industrial porque facilita a entrada de importados. De qualquer forma, o governo federal tomou algumas medidas para tentar incrementar a produção industrial”, disse.

Outro exemplo apresentado por Fausto foi o da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que trocou o investimento pelo lucro. “Entre 2007 e 2014, a empresa lucrou R$10 bilhões, distribuiu R$3,4 bilhões a seus acionistas, deixando somente R$1,7 bilhão anuais para investimentos na última década”.

Pesquisa também sofre – Fausto critica ainda a ausência de uma política de pesquisa e de incentivos à tecnologia e à inovação voltados à indústria no estado. “Isso se reflete na crise das universidades paulistas, na desarticulação de todos os centros de pesquisa e planejamento do estado, no sucateamento do Instituto Butantã, no desmonte do Instituto Biológico e agora com a extinção de órgãos como o Cepam [Centro de Estudos e Pesquisas de Administração Municipal]”, define, para quem o governo paulista não pode depender apenas das iniciativas federais.  

Em um dos momentos da oficina houve também o lançamento do livro “As faces da indústria metalúrgica no Brasil: uma contribuição à luta sindical”, uma parceria entre o Dieese e a Confederação Nacional dos Metalúrgicos da CUT. “É uma análise do ramo metalúrgico que vai de 2002 a 2013, período em que tivemos um Estado colocando diversas políticas industriais com o intento de fortalecer a indústria. A obra coloca os desafios do que precisamos avançar daqui para frente”, afirmou o economista André de Oliveira Cardozo, organizador da publicação.