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Postado em: 27/07/2012 - 11h32 | CUT

Negociação e mobilizações de massa serão as bandeiras da CUT, afirma Vagner Freitas

Em discurso após o anúncio de sua eleição, o novo presidente da maior central sindical brasileira e quinta maior do mundo, Vagner Freitas, falou sobre a importância de a classe trabalhadora pressionar Executivo e Legislativo por reformas fundamentais ao desenvolvimento brasileiro.

Citou a necessidade de rever os sistemas financeiro, tributário, eleitoral e, claro, sindical. Na base desse processo está a ampliação da participação da classe trabalhadora nos espaços de decisão, uma das prioridades dessa nova gestão. E essa mudança, defende, apenas acontecerá mediante muita pressão e capacidade de negociar.

Nessa entrevista Freitas comenta a relação da Central com o governo, fala sobre a expectativa com as campanhas salariais neste segundo semestre e comenta como será a atuação do movimento sindical CUTista nas eleições municipais.

O que a CUT priorizará nesta nova gestão?
Vagner Freitas – Essencialmente, estar muito próxima dos sindicatos porque os sindicatos de base é que são o pilar de sustentação da CUT diante da nossa concepção de um sindicato arraigado a partir do local de trabalho, com entidades participativas. Queremos ampliar o papel da CUT como interlocutora da sociedade e dos interesses do trabalhador, discutindo assuntos que vão além do cotidiano no local do trabalho, como a qualidade do transporte que utiliza, da educação da saúde, da segurança. Claro, sabemos que não há negociação sem mobilização, sem poder de enfrentamento dos movimentos sociais, sem colocar a pauta dos trabalhadores nas ruas. E para isso é preciso formar, organizar e negociar.

Falando em negociação, vivemos um momento delicado em que, de um lado, estão os servidores mobilizados e em greve para cobrar melhores condições de trabalho. Do outro, um governo que não apresenta propostas concretas. Como a CUT irá intervir nesse cenário?
Freitas –
Primeiro, a CUT concorda com a greve dos servidores e acredita que está faltando interlocução do governo para entender as reivindicações e apresentar soluções. Tem recebido os trabalhadores, mas não tem negociado em cima da pauta, não faz uma contraproposta. E ainda está dizendo que, talvez, no dia 31, se pronuncie. Isso só prolonga a greve. O governo não ajuda a resolver o problema quando não ser pronuncia sobre questões financeiras, de reorganização de carreira. Isso nos preocupa muito. Na conversa que tivemos, os ministros apontaram para a gravidade da crise financeira internacional, colocando que essa é diferente da de 2008. Mas é necessário discutir conosco abertamente para que a crise financeira não seja uma muleta para não atender as reivindicações dos servidores. Ficamos satisfeitos quando a presidenta Dilma recrimina os governos que estabelecem como saída da crise o arrocho fiscal, monetário, diminuição do Estado, tirar direito do trabalhador, ações que vêm do receituário ditado pelo Bando Mundial e FMI. Mas, se o próprio governo brasileiro diz que a saída deve ser investir no mercado interno, na expansão do crédito, em políticas públicas, aquecer o mercado e até tem feito medidas para garantir que a solução da crise seja diferente do aplicado nos países da Europa, como que agora na discussão com os servidores aponta a crise como culpada? Vamos ter que repetir para o governo: quem foi o responsável por essa crise não foram os trabalhadores e não pagaremos por ela.

Quais seriam as soluções a longo prazo?
Freitas –
Se a crise é preocupante, vamos fazer um debate interno e cobrar o ônus não só do salário dos servidores. Vamos discutir com setor empresarial para estabelecer medidas como uma reforma tributária para que os que ganham mais paguem mais e financiem desenvolvimento do Estado. Queremos ser chamados para discutir soluções que não o arrocho de salário. Nesse momento, a solução é aquela que tenho dito para o governo: negociar, negociar e negociar, trazendo a voz dos trabalhadores e impondo a agenda do crescimento e não da rigidez fiscal. Nós podemos ser parceiros para isso, mas não para pagar pela crise que foi construída pelo capitalismo internacional.

Muitas das transformações passam por decisões no Congresso Nacional. Como será a relação com o Legislativo?
Freitas –
O Congresso Nacional é o que está aí e a CUT precisa dialogar com ele. Agora é essencial construir políticas internas para fazer uma grande reforma política garantindo que o trabalhador possa virar parlamentar também e não apenas o empresário. Quando você não tem financiamento público de campanha, vale o jogo de quem tem mais poder financeiro. Por isso temos no Congresso Nacional um trabalhador para cada três empresários. Temos que democratizar a ascensão das pessoas ao parlamento por meio do financiamento público de campanha, do voto em lista. Precisamos inverter isso para que o parlamento reflita a magnitude da discussão que temos hoje na sociedade, algo que ainda não acontece. Você tem um processo de crescimento, de desenvolvimento econômico, 30 milhões de pessoas saindo da linha da miséria e o Congresso não reflete isso. Isso é uma forma de negar a democracia, negar oportunidades iguais na construção do parlamento. De qualquer forma, vamos procurar as bancadas de cada partido para apresentar a nova Executiva da CUT, a pauta dos trabalhadores que está trancada no Congresso Nacional, fazendo o papel que temos de fazer. Ao mesmo tempo em que pressionaremos o Congresso e o Executivo com as mobilizações de massa e de rua que fazem parte do DNA do sindicalismo CUTista, começando por uma grande marcha em Brasília, no dia 15 de agosto.

No segundo semestre temos as campanhas salariais das principais categorias do setor privado. Como a CUT irá intervir nesse processo?
Freitas –
Nosso objetivo é unificar todas essas lutas e transformar as reivindicações específicas na pauta geral. A ideia é combinar a luta entre as várias categorias, pública e privada, rural e urbana, de maneira que uma campanha ajude a outra e todas saiam vitoriosas com ganhos para os trabalhadores. Consequentemente, com o fortalecimento da classe trabalhadora para fazer as transformações que o Brasil precisa. Isso você só faz quando insere além do emprego e salário, lutas gerais que interessam a toda a classe trabalhadora como as reformas tributária, política, do setor financeiro, o fim do Fator Previdenciário, o fim da terceirização, a redução da jornada sem redução de salário.

Como a Central se posicionaria no processo eleitoral?
Freitas –
Já temos a Plataforma da Classe trabalhadora, que novamente discutiremos com os candidatos, e vamos continuar enfatizando nossas propostas. A ideia também é orientarmos as CUTs estaduais para que façam um levantamento das candidaturas progressistas e que ajudam no desenvolvimento desse nosso projeto CUTista de transformação do país. E orientar as lideranças sindicais a defenderem projetos que defendam propostas relacionadas ao desenvolvimento da classe trabalhadora e contra o retrocesso ao liberalismo econômico e à privataria tucana, do DEM e do PSD.

A campanha por liberdade e autonomia sindical entra numa segunda fase a partir de agora, com um abaixo assinado que percorrerá o país para apoiar a ratificação da Convenção 87 da OIT, que trata da liberdade e autonomia sindical. Como a Central atuará para aprofundar essa luta?
Freitas –
É fundamental para a democracia brasileira termos sindicatos fortes e organizados. Nossa defesa incondicional da liberdade e da autonomia sindical se dá por conta de acreditarmos que se não tomarmos conta do futuro do sindicalismo no Brasil, corremos o risco de banalizar e enfraquecer os sindicatos. Essa estrutura que temos hoje não ajuda a crescermos, ao contrário, fortalece entidades sem representatividade, sem relação com quem está no local de trabalho. A campanha que fizemos e que daremos continuidade nesse segundo semestre, ocupando todos os estados brasileiros, é de manutenção dos sindicatos como instrumentos de transformação da sociedade. Nossa campanha visa mostrar que o atual modelo só interessa a quem enxerga no movimento sindical meramente um meio de sustentação financeira, principalmente por meio do imposto sindical. Esperamos construir ainda mais adesões a uma campanha que visa fortalecer os sindicatos e lideranças sindicais combativas.

Qual o grande desafio da CUT?
Freitas –
Ano que vem a CUT faz 30 anos tendo cumprido uma trajetória na construção da resistência e da luta da classe trabalhadora brasileira. Mas, a conjuntura que iremos enfrentar é diferente: à luz do que construímos, precisamos pensar antecipadamente, à frente do nosso tempo, como fizeram aqueles que nos antecederam. Para isso, precisamos qualificar cada vez mais a Central e seus sindicatos para representar o trabalhador na plenitude de suas necessidades e continuar sendo um agente importante na construção de uma sociedade que desejamos, de justiça social, com um Estado indutor da economia, que não seja o mercado a referência de nossas vidas e ocupando os espaços que devemos ocupar.