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Postado em: 04/09/2018 - 18h40 | Dieese

Escolaridade garante ocupação, mas não melhores empregos  

Entre 2014 e 2017, com a crise, o número de ocupados no Brasil caiu de 92,4 para 91,4 milhões (-1 milhão). No entanto, o movimento não afetou a todos os trabalhadores: quem perdeu mais postos de trabalho foram aqueles que têm escolaridade mais baixa.

A ocupação cresceu para quem tem mais anos de estudo. O total de ocupados com até o fundamental completo diminuiu 4,8 milhões. Na contramão, o número de ocupados com ensino superior completo aumentou quase 2,2 milhões e o dos que tinham ensino médio incompleto ou completo, pouco mais de 1,5 milhão.

Apesar de a escolaridade facilitar o acesso ao mercado de trabalho em momento de crise, só uma pequena parte dos 2,2 milhões de ocupados com nível superior completo que conseguiu trabalho durante a crise conquistou uma ocupação “típica”, como profissional liberal ou em cargos de maior complexidade relacionados à gestão e direção.

Apenas 132 mil se inseriram como diretores e gerentes e 678 mil como profissionais das ciências e intelectuais, enquanto 1,3 milhão se ocuparam em funções mais rotineiras, administrativas e com exigências de conhecimento técnico/médio. O número de trabalhadores com essa escolaridade nessas ocupações “não típicas” passou de 5,0 milhões, em 2014, para 6,2 milhões, em 2017.

Deterioração produtiva e do mercado de trabalho brasileiro

Os números ilustram o grau da deterioração produtiva e do mercado de trabalho brasileiro: aumento da escolaridade dos ocupados, sem melhora da renda e com menor participação em ocupações de maior especialização. Na crise, como há mais trabalhadores disponíveis, sem alternativa de emprego, muitos empregadores “aproveitam” para contratar pessoal mais qualificado para postos e funções que não exigem escolaridade mais alta.

O número de pessoas com ensino superior mais do que dobrou em algumas das ocupações “não típicas” para essa escolaridade. Entre os vendedores em domicílio, por exemplo, os ocupados com ensino superior aumentaram 187%, passando de 49,2 mil para 141,2 mil, entre 2014 a 2017 (Tabela 3), crescimento de 92 mil. Nesse período, a proporção de trabalhadores com ensino superior completo nessa ocupação passou de 6,6% (2014) para 10,0% (2017). A quantidade de condutores de automóveis/taxis/caminhonetes com superior completo também cresceu bastante entre 2014 e 2017: foi de 47 mil para mais de 105 mil (aumento de 125%) no período.

Entre os profissionais de enfermagem cuja exigência é o nível médio, aqueles com escolaridade superior representavam pouco menos de 10%, em 2014, e passaram para 13%, em 2017, ampliação de quase 61 mil pessoas. Também cresceu muito o número de trabalhadores com ensino superior nos serviços de limpeza de edifícios/escritórios/hotéis: 117% (35 mil pessoas a mais). Importante frisar que, quando aumenta o número de pessoas com ensino superior em funções que não demandam essa escolaridade, uma parcela mais vulnerável que ocupava esses postos é expulsa do mercado de trabalho.

Os rendimentos médios dos ocupados com ensino superior, que ingressaram nesses postos de trabalho entre 2014 e 2017, sofreram o impacto dessa distorção da força de trabalho. Apesar de receber os maiores rendimentos médios, os ocupados com alta escolaridade foram os que tiveram a maior perda real entre os anos analisados – mais do que o dobro da média do mercado de trabalho brasileiro.

Daqueles com ensino superior que conseguiram trabalho em ocupações “típicas” (810 mil pessoas), apenas 172 mil tiveram a carteira de trabalho assinada, enquanto 331 mil se inseriram como conta própria e 145 mil como assalariados sem carteira, reforçando o cenário geral de precarização das relações de trabalho.

Do total de 2,2 milhões de trabalhadores com ensino superior completo que conseguiram ocupação entre 2014 e 2017, mais de 62% (1,3 milhão) se inseriram em trabalhos que não demandam essa escolaridade. Dos 810 mil inseridos em ocupações “típicas”, a menor parte alcançou um vínculo formalizado.